terça-feira, 23 de outubro de 2007

Os ventos da mudança

No próximo dia 4 de Dezembro uma das bandas que marcou uma época actuará no Pavilhão Atlântico. Os Scorpions vão tocar na maior sala de espectáculos do país, perante uma plateia de aficionados que saberá de cor e salteado as letras de todas as suas músicas. Quem não se lembra do refrão do “Wind of Change”, ou do “Still Loving you”… certamente que muitos de nós já foram felizes ao som destas e de outras das suas músicas.

Esqueçamos esses momentos felizes, que este Blog está a ficar demasiado lamechas e, quando mais à frente disser que estou a pensar em inscrever-me no Bloco de Esquerda ninguém vai acreditar, portanto, voltando aos factos, concentremo-nos no concerto, concentremo-nos nos “Ventos da Mudança”, concentremo-nos no país real.

Este concerto da banda que canta o “Wind of change” é, ou poderá ser, o momento de viragem política e social do país. Dirão vocês:”- Este gajo está-se a passar!”, pois estou, mas como diz a outra “Isso agora não interessa para nada”. O que interessa é que o país precisa de escutar os ventos da mudança, o país precisa de escutar a voz do povo, a voz daqueles que passam dias a percorrer as cidades de lés-a-lés à procura do ganha pão, à procura de sustento, o país precisa de ouvir a vós daquele que o construíram com sangue, suor e muitas vezes lágrimas. O país precisa de deixar de se centrar no pequeno ecrã, precisa de ler, precisa de ser critico, auto-critico, hetero-critico, o país precisa de cultura que não seja só o fado, de desporto que não seja só o futebol, e de uma Fátima que até pode ser a Lopes, mas sem a religião a comandar o poder político (amanhã tenho a Opus Dei à porta do prédio!!!!…esta parte foi mais para o Francisco não rejeitar a minha ficha de filiação!).

Mas que país é que temos? Temos um país em que o Presidente da República faz um discurso brilhante sobre o Ensino e sobre a Educação, que pede que se valorizem os Professores, que se envolvam os pais na Escola, que se envolva a comunidade … é aqui que apetece dizer… óh Senhor Presidente… Onde é que tem andado? Valorizar os Professores? A maior classe de trabalhadores precários do nosso país? Que trabalham para aquela empresa famosa de trabalho temporário, como é que se chama? Ah, Ministério da Educação!!! Envolver os pais na Escola, na educação escolar dos filhos? Mas para isso é necessário abrir as portas das escolas aos pais e à comunidade, ou será que isso incomoda muito? É mais seguro proibir os pais de entrar nas escolas, como acontece hoje em dia. Mas é mais seguro para quem?

Valorizar a escola porque é a escola que valoriza a comunidade. O Sr. Presidente sabia que o governo este ano fechou inúmeras escolas do primeiro ciclo? O Sr. Presidente sabia que na maioria das Aldeias das escolas que fecharam, o Professor era a única pessoa que levava diariamente as novidades do mundo? Que já nem o Padre visita diariamente as Aldeias? Se sabia, acho bem que puxe as orelhas ao Governo. Se sabia, acho bem que tente mudar esta situação. Se sabia, acho muito bem que queira não só uma comunidade mais interventiva na escola, mas também uma escola mais interventiva na comunidade. Se sabia Sr. Presidente, acho bem que tenha sido a escola o centro do seu discurso do 5 de Outubro.

Em tempos fui Professor, este ano ainda caí na tentação de voltar, de abraçar um projecto que me dê mais luta do que o projecto onde estou envolvido agora. Em tempos dizia na brincadeira aos meus colegas que tinha conseguido sair a tempo, mas agora, depois de ouvir atentamente o seu discurso enquanto enfrentava a dura fila do IP2 a caminho de Castelo Branco depois de um camião se ter virado, mudei de ideias, e espero voltar à escola a tempo de abraçar o seu projecto. Espero voltar a uma escola aberta para a comunidade, para uma escola que ajude os alunos a desenvolver competências, atitudes, valores. Uma escola que os ajude a criar os seus projectos, os projectos da família, os projectos da comunidade, uma escola aberta, uma escola inclusiva. Mas isso será quando? Saí da escola porque cheguei à triste conclusão que não a conseguia mudar! E como não consegui mudar a Escola, não deixei que ela me mudasse a mim. Poderão dizer que desisti, mas não desisti, aliás, eu nunca desisto, ainda aqui estou, apenas encontrei um outro ponto de vista sobre a escola, o ponto de vista que por vezes tanto custa aos professores, a vista do exterior.

Mas voltando à abertura da comunidade à escola. Tradicionalmente sempre se criou uma barreira bastante visível não só entre a comunidade e a escola, como também entre a escola e a comunidade. É fácil de perceber, basta olharmos com atenção para a estrutura dos edifícios escolares, nomeadamente os construídos pelo Plano dos Centenários, janelas altas e escolas no fim da povoação não abonam a favor da integração. Mas o que devemos mudar? Será que chega mudar só por si o modelo arquitectónico dos edifícios escolares? Por exemplo, com Escolas desenhadas pelo Siza Vieira. Será que chega mudar de atitude? Ou será que basta um discurso do Presidente da República nas comemorações do 5 de Outubro a abrir as portas da escola e da comunidade? Ou será que nada chega? O melhor é ouvirmos “os ventos da mudança”, e os ventos da mudança dizem-nos que a escola sempre demorou a adaptar-se à sociedade. Quando surgiu o rádio, pensou-se que este iria resolver todos os problemas da educação, depois veio a televisão, e até se criou uma Telescola, que não resultou, agora chegou o computador, qual D. Sebastião, desta é que vai ser! Vamos criar salas de informática, vamos colocar um computador com acesso à Banda Larga em todas as salas de aulas, sim, porque a União Europeia está a dar dinheiro para isso, e vamos ainda colocar um quadro daqueles todos xpto, como os que aparecem nos “Morangos com Açúcar”! Pois é! E o resto? E os conteúdos programáticos? Vamos mantê-los? Ou vamos adaptá-los à nova sociedade? E a dimensão local do currículo? É para aplicar ou não? E os alunos? E a estabilidade da classe docente? E a Gestão Autónoma da Escola? E mais importante que isso, alguém sabe onde se compram os bilhetes para os Scorpions?

domingo, 21 de outubro de 2007

O Beijo



O Beijo (do latim basium) é um toque dos lábios com algo, normalmente com uma pessoa. Em cada cultura há um significado diferente para o beijo, na cultura ocidental este é considerado um gesto de afeição. Entre amigos, o beijo é utilizado como cumprimento ou como gesto de despedida. Mas existem outros tipos de beijo, como o beijo nos lábios de outra pessoa, geralmente associado ao romantismo dos casais, ou o “linguado”, uma vertente avançada do beijo na boca, onde as línguas se acariciam mutuamente, e que na maioria dos casos se associa ao desejo sexual.

E para ti? O que é o beijo?

Para mim o beijo é uma forma de expressar um sentimento, para exprimir uma frase que não sai, para parar uma frase que não deve ser dita! Há vidas que se constroem em torno de um beijo, outras são destruídas pelo beijo que ficou por dar. O beijo é sem dúvida a arma mais poderosa que poderemos alguma vez usar, é o expoente máximo da expressão sentimental perante o mundo, perante a sociedade. O beijo é público, deixou há muito tempo de fazer parte exclusiva da intimidade do casal.

O beijo é um símbolo do cinema e já foi alvo de inúmeras músicas. Para o meu beijo, escolho o Beijo do Pedro Abrunhosa, que é muito mais que um beijo, é uma verdadeira história de amor!



“Não posso deixar que te leve
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar
E vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.
Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.

Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.
Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.”

Pedro Abrunhosa

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Menina dos Olhos d'água

Tal como as histórias, também há músicas que nos ficam para sempre no ouvido. Também em tempos… ou melhor … há muito muito tempo… também uma música, na altura trauteada pelo meu pai, me ficou no ouvido.

Obrigado Pai por me a teres dado a conhecer … Obrigado Pedro Barroso por a cantares de uma forma singular… como só tu o sabes fazer!



“Menina em teu peito sinto o tejo
E vontades marinheiras de aproar
Menina em teus lábios sinto fontes
De água doce que corre sem parar
Menina em teus olhos vejo espelhos
E em teus cabelos nuvens de encantar
E em teu corpo inteiro sinto feno
Rijo e tenro que nem sei explicar
Se houver alguém que não goste
Não gaste, deixe ficar
Que eu só por mim quero te tanto
Que não vai haver menina para sobrar
Aprendi nos 'esteiros' com soeiro
E aprendi na 'fanga' com redol
Tenho no rio grande o mundo inteiro
E sinto o mundo inteiro no teu colo
Aprendi a amar a madrugada
Que desponta em mim quando sorris
És um rio cheio de água lavada
E dás rumo à fragata que escolhi
Se houver alguém que não goste
Não gaste, deixe ficar
Que eu só por mim quero te tanto
Que não vai haver menina para sobrar”

Pedro Barroso

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Estranhões e Bizarrocos

Há histórias que ficam na nossa vida para sempre! Em tempo, li uma que jamais esquecerei. Em breves linhas podemos traduzir todo o significado da nossa vida em Estranhões e Bizarrocos... Obrigado José Eduardo Agualusa.

"Jácome era um inventor de coisas impossíveis: tinta invisível, formigas mecânicas, pássaros a vapor, sapatos voadores, aparelhos de produzir espirros. Não se podia dizer dele que não tinha imaginação – tinha, e de sobra. Não se podia dizer que não fosse trabalhador – Jácome trabalhava o dia inteiro. O problema era que nada do que ele inventava parecia ter utilidade.
- Jácome – diziam-lhe os amigos -, o que tu fazes são inutensílios. Inventa alguma coisa que preste. Por exemplo: couves com sabor a chocolate. Máquinas de fazer sol. Peúgas à prova de buracos.
Jácome concordava com os amigos. Sim, eles tinham razão. Fechava-se na sua oficina e começava a desenhar novos projectos. Porém, o que saía das suas mãos, nem ele percebia como, eram só engenhosos disparates: água em pó, pregos de papel, comprimidos para adormecer caracóis.
Os amigos começaram a afastar-se dele. “É maluquinho”, comentavam, “não faz mal a ninguém, mas é assim meio maluquinho”.
Um dia Jácome acordou e percebeu que já não tinha amigos. Estava sozinho no mundo. Completamente sozinho. Tinha os pássaros a vapor, é certo, e as formigas mecânicas. Então, para lhe fazerem companhia, inventou outros animais.
Um mundo inteiramente novo começou a nascer na sua oficina: eram lagartixas de todas as cores do arco-íris, camelos de cinco bossas, camaleões cantores, de pele luminosa, gatos que pareciam anjos, com pequenas asas de seda plantadas no meio das costas. Um dia inventou um animal que não se assemelhava a mais nenhum. No dia seguinte criou um segundo, igualmente estranho e chamou-lhe Bizarroco.
Quando as outras pessoas descobriram o que se estava a passar já era demasiado tarde. Os bichos de Jácome não cabiam na oficina e espalhavam-se pelo quintal, pelo pátio, e até pelo passeio em frente. Os vizinhos resolveram chamar a polícia:
- Aquele homem – acusaram –, inventou um mundo. E o mundo dele está a engolir o nosso. Alguns traziam fotografias dos estranhões e dos bizarrocos.
- Vejam bem – mostravam –, estas coisas não podem existir. Elas assustam as nossas crianças.
Não era verdade. As crianças não se assustavam com os bizarrocos e nem sequer com os estranhões. Eles nunca tinham visto nada assim, mas todos os dias descobriam coisas novas, que nunca tinham visto antes, e por isso achavam os estranhões e os bizarrocos muito naturais e gostavam deles.
Os vizinhos, porém, insistiram tanto, tanto, que os polícias foram obrigados a intervir. Numa tarde de chuva, muitíssimo triste, bateram à porta da oficina e levaram Jácome para a prisão.
Nos primeiros dias, Jácome deixou-se ficar estendido na sua cela, a pensar, tentando perceber porque é que fora parar ali. A cela possuía uma pequena janela, com grades, e ele podia ver o céu e os pássaros a voar.
“As pessoas”, concluiu Jácome, “as pessoas grandes têm medo de tudo o que é novo”.
Uma manhã acordou e viu um dos seus pássaros a voar pousado na janela.
- As crianças – disse-lhe o pássaro -, querem tirar-te da prisão.
Um pouco por toda a cidade as crianças organizavam manifestações a pedir a libertação de Jácome. Os bichos iam com elas. Viam-se meninos às costas dos estranhões. Viam-se bizarrocos aos gritos, segurando cartazes: “Queremos Jácome!”. “Jácome é um bom companheiro”. “Viva o inventor impossível”. Os adultos não sabiam o que fazer. Era uma revolução. As crianças, nas escolas, só falavam naquele assunto. Vinham para casa e exigiam aos pais a libertação de Jácome.
Finalmente, o chefe da polícia concordou em libertar o inventor. Quando chegaram à cela dele, porém, não o encontraram. A partir de um relógio de pulso, de um botão de camisa, de algumas molas da cama e de um lençol, Jácome tinha inventado, alguns dias antes, um aparelho atravessador de paredes. Montado nele, atravessou as paredes, como se estas fossem feitas de água e voltou tranquilamente para a sua oficina.
As crianças, os estranhões, os bizarrocos, os pássaros a vapor, as lagartixas com pele de arco-íris, enfim todos os bichos que ele havia inventado, receberam-no em festa. Uma festa que durou três dias.
O atravessador de paredes foi a única coisa útil que Jácome inventou. Tudo o resto nunca serviu para nada. Mas é muito importante."


José Eduardo Agualusa